Eppur si muove (no entanto se move)

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Diz a lenda que quando Neusinha Brizola sentia vontade de fazer ginástica, ela se deitava no sofá e esperava a vontade passar.

Quando nos exercitamos, estamos exercitando o sistema locomotor, aquele que nos faz deslocar no espaço, mover. Portanto, a finalidade do exercício físico deveria ser a manutenção e/ou a recuperação dessa nossa habilidade de se movimentar. No entanto, parece que o foco da maioria dos métodos de condicionamento físico não é o movimento e o seu sistema locomotor, mas tão somente uma parte dele: os músculos. A musculatura como um fim em si mesmo, descontextualizada do sistema ao qual pertence.

Um entendimento corporal no mínimo paradoxal.

Será que não está aí uma pista para compreendermos a razão pela qual a atividade física para muitas pessoas, a maioria, é algo a se procrastinar? Ou, se iniciada, algo a ser rapidamente abandonada, mesmo que todo o discurso em torno dela associe o condicionamento físico ao bem-estar? Será mesmo? Pois a maioria das pessoas quando faz ginástica não sente bem-estar e, sim, mal-estar. Desconforto e dor, não prazer.

Quando exercícios físicos tornam-se desagradáveis ao serem executados é por que algo deve estar muito mal organizado neles. Um dos motivos para esta desorganização, acredito eu, pode ser a ênfase desproporcional que se dá à musculatura na execução dos exercícios. Neles, mesmo com consciência corporal, pratica-se músculos, não movimentos. A palavra de ordem é: vamos malhar, esculpir, tornear cada um de nossos músculos. Mas ninguém é de ferro, muito menos de pedra. E repito, a musculatura faz parte do sistema locomotor, logo, está a serviço do movimento, não o contrário. Onde está a habilitação ao movimento nestas metáforas tão disseminadas na cultura da boa forma? E que boa forma é esta?

Na promessa de se adquirir um corpo que não temos, mas que é ditado como o único desejável pelo modismo do momento, criamos músculos definidos e entumecidos, acompanhados por movimentos indefinidos e robóticos, num processo que nos afasta de nós mesmos, nos alienando de nossos próprios corpos e o seu movimento saudável.

Mas voltando à Neusinha Brizola, para uma minoria de pessoas não adianta deitar-se no sofá para passar a vontade de fazer ginástica. A vontade não passa. Estoicamente vão em frente, exercitando-se como quem cumpre o necessário pagamento de uma penitência. Para elas o ditado “no pain, no gain” faz total sentido. É a dor que avaliza a execução do exercício. Para estas pessoas, o esforço físico só vale a pena se sentirem desconforto. Elas desconfiam do prazer e do bem-estar.

Suspeito que para se organizar o movimento de forma eficiente e saudável temos que ir muito além de comandos, voluntários, é claro, de acionamentos musculares como a ativação do “power house”. Ao longo de nossas vidas, num certo círculo vicioso, vamos cristalizando uma série de compensações posturais que surgem por um lado, conforme alguns autores, em razão de uma bipedia evolutivamente mal resolvida e por outro, por lesões no sistema locomotor causadas por acidentes e maus hábitos posturais decorrentes do nosso estilo de vida. A cristalização das compensações posturais se dá pela instalação de tensões musculares parasitárias que se transformam em retrações e encurtamentos musculares que acabam comprometendo o bom funcionamento de todo o sistema locomotor.

O X da questão me parece ser como inibir e interromper o círculo vicioso.

Não temos o controle voluntário sobre este processo. A mente não controla tudo. A construção do nosso movimento se deve também, em grande parte, a mecanismos inconscientes. A grosso modo, é fácil fortalecer um músculo. O difícil é ensiná-lo a parar de trabalhar.

Não tenho respostas para as questões que coloquei nesta matéria de estréia como colunista na +Q Pilates, mas acredito que são questões pertinentes e aproveito esta oportunidade que me foi dada, para compartilhá-las com os seus leitores e seguidores.

Obrigado.

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